Pura poesia

Ilusão do poeta,
que acredita no destino
a sua intuição intrínseca
é também; seu desatino!
um abismo de palavras
onde se lançá sozinho
um deserto de presenças
no seu solitário caminho.

Caminha com ambivalência
perdeu a noção do perigo,
no íntimo do seu desassossego
encontra um abrigo
sedento de conhecimento
nunca para no caminho.

Caminho de todos aqueles;
expulsos do paraíso.
que vivem acreditando,
em tudo; o que não faz sentido.

Escreve lentamente,
como quem faz amor
com as palavras,
e em densos parágrafos impublicáveis,
desnuda a sua alma.

Esquece o que queria dizer;
diz mais do que gostaria,
guarda em gavetas
o que ainda não compreende,
joga fora tudo que excede.

— Não tem jeito, não tem saída!
tudo o que lhe orbita; é pura poesia!

Jesica N.

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5 mil léguas

-Guarda-chuva em dias de sol
sapatos apertados.
Estabilidade na lua,
instabilidade na terra.
Principio do meio,
fim de todo começo.

Maquinas imperfeitas,
perfeitos corpos humanos.
Chuva com sol,
um sol nublado.
Leituras inversas
malditos poetas,
maldita hora,
INSATISFEITA!

Voraz como toda dúvida,
toda dúvida que alimenta;
a procura do caminho desconhecido,
um caminho que atravessa!
5 mil léguas de distância
do suave destino incerto.

Onde morre toda esperançá
além do errado e do certo.
5 mil léguas de lembranças;
levam ao poeta a morrer de poesias.
5 mil léguas de ilusões
e algumas tardes um tanto vazias.

Jesica. N

Pintura: A morte de Safo, Miquel Carbonell i Selva (1854-1896) – Safo, 1881

O sono dos deuses

Caminhas sobre as águas,
são as águas de todo o mundo.
Teu corpo repousa no descanso,
descanso, de um sono profundo
vem a noite, e o que sonhas…?
são os sonhos de toda noite.
E o que sentes?
já não sentes como outrora!

Desperta o dia como um sonho,
e noite como uma lembrança…
no teu íntimo,
morre toda racionalidade abstrata.
Tudo o que se explica
não encontra explicação
no lugar da onde a pouco viestes.

Mas no caminho da dúvida
descobres a esperança;
de muito saberes,
e não saberes mais de nada,
e enquanto observas a dúvida
sois por ela também observado.

Antigos anjos se divertem
ao ver tua alma despida de certezas.
O caminho que agora trilhas:
o anjo negro conhece.
Adentras no espaço sagrado
onde teu real ser imaculado:
espera ser despertado,
com um beijo de amor embriagado.

Não há nada…..
o espaço que deixastes, esta vazio,
como vazia é a alma dos que sentem.
teu corpo dorme
o sono humano,
presso e encarcerado.
Os deuses riem da tua dúvida
que esqueceste ao acordar.

Eles se reinventam
em rostos conhecidos
alimentando tua fé
em causas impossíveis,
tudo fazem para não perceberes
que tens no corpo encarcerado,
a consciência limitada, que um dia
eles mesmos de ti, roubaram!

Por dentro, caminha o surreal

A rua calçada um tanto irregular comportava o seu passo lento e pensante, caminhos escuros antes trilhados demarcavam o retorno ao desconhecido. Lavaredas de fogo antecipavam a chegada não almejada do brusco fogo que ascende sua alma, uma alma tingida de cinza pelo esquecimento de tudo o que um dia fez sentido, vontade da potência aurida de falsas expectativas; latente, andrógina, capaz de acender a alturas antes inimagináveis, caminha na rua como sendo apenas mais um na multidão.

Fogo precipita-se no seu íntimo crepitando incandescente, poucos enxergam o abismal e desconcertante reflexo da sua sombra tênue exaltada pelo fogo que ilumina sua alma, a tarde enaltece o sentimento de tudo o que se foi.

Por dentro, caminha o surreal…

Concurso novos poetas

Quem me conhece sabe que escrever é minha religião, meu processo de autoconhecimento, minha inspiração e sempre fez parte da minha vida e da minha condição de alma livre, alma de poeta. Hoje estou muito feliz pela minha poesia; Ilusões Poéticas ser selecionada para fazer parte da Antologia Poética, Poesia Brasil 2019, da editora Vivara que será lançado no mês de julho. É a primeira vez que me inscrevo num concurso literário e ficar entre os primeiros novos poetas do Brasil é uma honra, uma sensação difícil de descrever.

Na vibe do dia de descanso de muitos trabalhadores e com alegria deste reconhecimento literário no meu peito, desejo um bom dia a todos os amigos!

Ser poeta é não ser previsível.

Se apegar a dúvida explicita do nada sei, reside no universo febril e intenso de toda alma poética que se separa da mediocridade cotidiana, das certezas rasas e tolas, ao mesmo tempo que se afunda em devaneios completamente inúteis a vista do seres racionais e lógicos. Viver entre as certezas cientificas, morais e religiosas, e se limitar para servir a uma realidade falsa que invetaram em prol da nossa funcionalidade. O universo, como o amor, é imensurável, não existe explicação que satisfaça o que está além do material, do tangível, do funcional.

Viver em estado de Poesia é atravessar um oceano profundo e tantas vezes sombrio, pelo fato de ser desconhecido, arriscado, louco e visceral. A vida não possui manual de instruções, dúvidas, sonhos, desejos, inconsciente, intuições, transferências, são desconsiderados num contexto racional. O desconhecimento total do profundo oceano interior é sempre a margem mais segura do permanecer humano.

A credulidade perigosa das religiões, das verdades afirmadas pela publicidade, das convicções sobre a aparência, a ascensão social e a visão utilitária das relações pessoais nos tornam rasos e previsíveis. Somos treinados para pensar e falar das mesmas coisas, correr atrás de horizontes cada vez mais distantes do que somos. Perder tempo pode ser um ato completamente revolucionário, do qual, aqueles seres ocupados demais nunca saberão. Talvez morram amarrotados de coisas externas, cheios de relacionamentos convencionais com pessoas altamente previsíveis e sejam considerados sujeitos exemplares perante a sociedade. Porém, o arrependimento de não ter amado, vivido, arriscado, os assolara certamente no dia da partida. 

Tudo o que temos são nossas experiências, elas nos modificam constantemente, dependendo da nossa disponibilidade de ser modificados pelo incomum, pelo caos, movimento natural de transgressão e evolução.

A mídia e seus símbolos repetitivos, a falsa política e a religiosidade perturbam mentes susceptíveis enquanto manipulam pelo medo. A realidade da maioria afunila-se em contextos que não lhe pertencem.
A diversidade é rica no seu contexto eternamente incompleto e, quase sempre incompreensível, mas é sobre ela que reside a maior riqueza humana. Medo, arrogância, cobiça e indiferença com o próximo, uma civilização politicamente correta e humanamente frágil. Duvidar é pensar profundamente numa liberdade democrática e cosmológica, duvidar é um ato de coragem que os poetas reconhecem. Duvidar é sempre melhor do que seguir gurus donos de verdades absolutas, que não reconhecem suas próprias inverdades. Só posso acreditar naquele que dúvida de si mesmo.

Em tempos de verdades absolutas e respostas online, a dúvida deve ser resgatada pelo inconsciente, pelo risco, ao pecado e à dor, enfrentando a vida e todas suas incertezas. O mundo surgiu do caos, o mundo é caótico por natureza, nada esta parado, tudo tende a entropia, nada esta completo, nenhuma explicação será suficiente para desvendar o mistério da vida. Algo só é real quando é para você mesmo.

Ser poeta é não ser previsível.

Frase de Jose de Saramago

eu lírico

havia um recanto inacessível dentro da sua alma
uma solitude taciturna e embriagada de si mesma,
havia cores escuras ofuscando nuances de luz que se dissipavam no caos.
havia êxtases intermitentes, desejos profundos, angustias passageiras.
nada era obvio, tudo era completamente desnecessário e fugaz, embora na sua alma, permanece-se.
o tempo como um relance efêmero do infinito
abriu passagem para o desconhecido.
o tempo que dilacera as esperanças,
o mesmo que destrói os corpos pequenos e errantes,
corpos frágeis, sujeitos a entropia
tempo, fragmento de esperança na noite vazia
de uma alma sedenta
tempo inexistente,
ao qual me inclino por imposição insana de tudo o que não importa nada.

Rob Gonçalves