Ela.

Ela acordou mais tarde do que o normal, a chuva lá fora a resgatou de um verão insuportavelmente quente para pensar, a chuva sempre a ajudava a pensar com maior clareza. O calor dos últimos dias tinha a deixado confusa e febril, como que embriagada em sentidos estranhos e distorcidos.

Desceu as escadas rumo a cozinha para fazer o café da manha, o calor tomava conta da casa. A chuva la fora parecia outra realidade, as coisas sempre eram diferentes do lado de fora. O sol a direcionava sempre para fora, a chuva, para dentro. Gostava de ser direcionada para dentro a partir de pensamentos e sentimentos que perdurassem mais do que um instante, gostava do infinito.

Uma gota de água, pode ser apenas; uma gota de água, ou, pode ser um dilúvio para um perfeito sonhador exagerado. Se tratando de pensamentos e sentimentos ‘Ela”… era exagerada. Exagerada como um filme romântico de 1928. Às vezes, eu me enjoava de escrever sobre ela.

Ela era minha inspiração, até que um dia de chuva passei a me perguntar; Quem era ela ao final?

Photo Herb Ritts,
Now and send 1. El Mirage, 1999.
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Necessidade

Necessidade de buscar suas mãos;
seus bordes, suas contradições,
suas velhas suposições.
Complementá-las, desconstruí-las,
todas elas, uma por uma…
dar-lhes um novo sentido
tão próprio; como nosso.
Exatamente da forma que o descreveste…
lentamente e com intensidade impar.

Densa sutileza

O dia permaneceu quente, a chuva não o confortou com sua chegada. Os raios zombavam desde os céus com toda sua força, o calor permanecia agora como chama ardente que se instala. O entardecer chegava, lentamente, absurdamente, com uma intensidade toda especial, trazendo a tona cores sepias e cinzas, num horizonte distante; tão incerto como fugaz. Já não era como ontem. Ontem, as coisas eram mais simples, aprofunda-las; complicou tudo. -pensar, fez com que se vissem, e inevitavelmente; se ferissem, assim, tudo o que era leve, se solidificou rapidamente pela intensidade dos seus componentes. O processo se reverteu, contrariando a máxima alquímica de transformar o grosseiro em sutil.

Seu nome

Pronuncio seu nome
em noites obscuras,
antigos aeons hoje esquecidos,
observam-nos atentos.
A lua continua.
dormem as constelações
de nomes graciosos.
Meu vazio não cessa
nem poderia cessar,
relógios enlouquecidos
giram depressa.
Pronuncio seu nome
e você não esta.
Te sinto longe, me afasto,
espero, me preparo,
tudo para me encontrar;
te encontro; hoje e sempre
naquele lugar; tão platônico,
quanto material.

Tão trivial, como incomum

Teu eterno breve instante, tão trivial como incomum, perpétua agora, meu instantâneo sonhar contigo, e olhando, nada posso dizer, sem ter a certeza de estar completamente enganada.

Partículas de sua personalidade gelada e funcional se condensam em sonhos de realidade pseudo-térmicas invisíveis, e, um tanto inúteis para quem tudo pode ver, enquanto não vê absolutamente nada.

E assim, contemplando a frequência do teu timbre, envolta na profundidade intensa da não presença, sinto preencher as oitavas que ressoam na alma, enquanto sonhos se afastam lentamente da ilusão do ontem.

Desperto hoje na qualidade suave do invisível.

Disso sabem as flores

Da minha janela vejo os céus, os meus olhos não querem voltar, viajam pelas nuvens e viram pensamentos; tão passageiros como suas metamorfoses confusas, posso sentir, ver, tocar, sem ser vista por ninguém, sem que ninguém saiba, que estou aqui, tão pequena, irrelevante, confusa e insciente, a pensar no indefinível que me habita, naquilo que mesmo sem entender, sinto entranhado no ser.

Sinto e pressinto, uma sublimidade velada pelo efêmero, contrariando inadequadamente, sua real perenidade exposta em tudo; pelo simples. Perdida no horizonte, tropeço no tempo que não é o hoje, sinto que a morte tem tanta vida, que é difícil entender, explicar, perceber, assim como esse breve instante, que se refugia na memória para não se perder e continuar de alguma forma vivo, dentro de mim.

Começa a chover, enquanto à terra espera, tranquila pelo seu alimento, o vento invisível adentra nos recantos, distante, veloz, permeável. -O que vejo agora, são novos horizontes e os recantos longincuos estão vazios, por que estão sendo preenchidos pelo invisível.

— Disso sabem as flores, os pássaros e alguns de nós, que reparam…disso sabe o vento, sem precisar dizer…

Na contramão

Na contramão, o fogo-fátuo da tua presença profunda e efêmera, me traz uma calma amena, da qual não consigo me livrar. 

Na contramão, as paredes falam o que a boca cala e eu tento captar. 

Na contramão, há um túnel obscuro e cinza, que poucos resolvem trilhar, dentro dele me encontro e por conta própria não paro de caminhar.

No fundo dele, talvez haja uma saída, o reino de Agharta ou algo mais.

No posso parar na contramão; estou só, as luzes se foram, o silêncio prevaleceu.

Somente, estou.

……somente, estas!