Nada possuo

Nada possuo que seja meu — nada é meu. E porque somos transitórios e que me entrego aos seus olhos, eles, que refletem o mesmo mar em que me afogo lentamente e com prazer. Como um abismo sem presença, que ao mesmo tempo e imensidão. Assim refletido no mar, meu mundo, e só o que tenho.

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A cegueira vigente

A cegueira vigente vê muitas cores, são inúmeras suas “nuances” e variáveis. No entanto, é vazia sua extravagância. Sua abundancia hipnotizadora, adormece os nossos sentidos atrofiados. De repente, algo muda, passamos a caminhar na sua companhia. Vemos todos os objetos e os nomeamos, no entanto, o que enxergamos não é o que de fato é. A imagem é sempre corpórea é insignificante frente à percepção. O que percebemos é particular e depende das experiências de cada um, a partir das suas próprias vivências, por isso são limitadas. Agora todos estão sendo forçados a ver o mundo da mesma forma. A visão se tornou polarizada, portanto, cega, embasada, ridicularizada por todos aqueles que são cegos também. Cegos guiando cegos, cegos se declarados despertos e dessa forma escancarando a sua cegueira ainda mais. Se por ventura, alguém sentir sem anestésicos, o sopro da vida, e seguir seu próprio destino, tentando enxergar todas as direções, e não somente, naquela direção onde, como cavalos, com viseiras nos obrigam a enxergar, deixara de ser cego de significados. -Quando finalmente perceber com os sentidos, o que ainda não pode ver com os olhos-.

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Insignia

— Apago o cigarro sem nome que fica na velha caveira de vidro, que guardo para me lembrar da brevidade da vida—. Hoje é sexta-feira, penso na vida, nas pequenas coisas, em tudo o que ainda vira, na impermanência das coisas e dos meus pensamentos que passam por mim, e me esquecem. Esquecem de me avisar que pretendem se instalar dentro de mim, na maioria das vezes não me permitem ser o que sou, ando perdido no meio deles. —Tenho medo de errar, já errei antes tenho medo das pequenas coisas que ainda nem sei dizer—. Olho em volta, tudo está calmo e tranquilo aparentemente; o som dos pássaros ao fundo, a TV ligada, mesmo que eu não queira. É primavera, chove la fora, enquanto vai lavando tudo e restaurando a vida em todas suas fases, irrigando a secura das manhas cinzas. — Eu sou quero escrever, sentir, sonhar; esquecer por um momento das obrigações da vida, da correria inútil que não leva a lugar algum — Não quero ser perfeita, não quero me encaixar em roteiros existenciais, os meus desejos e sonhos são sempre abstratos e inconformados-, procuro sempre dialogar com eles, por que sei que posso me reconhecer, me aceitando humana. Levanto, pego a xícara de cafe, olho pela janela e vejo a natureza desabrochando em esplendor, desejo que prevaleça para sempre.

O mundo anda rápido demais para mim, às vezes só quero descer, parar e observar, as mudanças são demasiado aceleradas para minha mente lenta, ela, que deseja gravar na memória as pequenas coisas que dão sentido a tudo o que não tem sentido. No entanto, sei que nada é para sempre, sinto algo no peito, algo que parece com saudade. Decido agora, no mais pensar, no mais esperar, no mais fumar — não sei ate quando—. Sempre estou tentando me reinventar, recriar novas formas de ser, nem sempre me movimento como gostaria, às vezes, me sinto estagnada e, é justamente nessa hora que percebo que os mundos que me habitam, são muito maiores que os pequenos mundos que crie para mim, ao mesmo tempo, sei, que esse meu mundo é o único que posso mudar, portanto, eu tento, não de forma imediata, más, aos poucos… acompanhando a dança da vida de forma natural. Entrar na ilusão de querer mudar tudo de uma hora para outra é se perder no caminho, sem conseguir assimilar as experiências que a vida traz. — Aos poucos altero o mundo de dentro para fora—, me observando e me vendo também de alguma forma nos outros seres que me ligo; Eles, meus companheiros de caminhada, são de três tipos específicos; Os que não tenho afinidade alguma e são meus maiores professores na virtude da paciência, os que são atraídos por frequências e  me encantam, e aqueles que o destino e as nossas escolhas nos destinaram a conhecer, viver e amar, mesmo que não sejamos iguais. Amar é um aprendizado que encerra todas as falsas teorias. Finalmente espero pela noite, na cadeira de balanço, outro cigarro sem nome, enquanto os pensamentos fluem, deixo que a esperança seja o que é; a espera consciente de tudo o que, no fundo, já sei. Nada novo, tudo esta no ar, nas pequenas coisas, e na insignia do seu olhar… que levo comigo sem entender direito, o por que dele se instalar.

Os outros em nós

Somos tantos que não podemos compreender por completo a nossa diversidade, precisamos de espelhos, onde possamos enxergar-nos e reconhecer-nos. Os espelhos são os outros, mas os espelhos às vezes quebram, por que o que somos, não se encaixa no outro e na maioria das vezes também no se encaixa naquilo que pensamos ser.

O que somos então, além do que pensamos ser? Além das linguagens que confundem, além dos espelhos que distorcem, além do outro, que tentamos adaptar a nossa imagem e semelhança, sem respeitar sua individualidade.

-Somos um pouco de tudo e o que está além desse tudo e o nada, que contém em si, todas as possibilidades de ser. Refletir traz desapego, refletir é um ato solitário, refletir demostra, que apesar de todas as palavras e símbolos que usamos para definir às coisas, a problemática da nossa existência e da relação com o outro e suas singularidades, excede todas as formas de definição. A nossa vida esta completamente fora do controle ao qual tentamos nos apegar, a vida esta fora dos nossos julgamentos insensatos e nossas palavras ultrapassadas e repetitivas, por isso, talvez, o nosso maior desafio neste mundo, seja o de observar, escutar e sentir com atenção e sem julgamentos, tudo aquilo que esta além das palavras e das definições que estamos acostumados a dar; sobre nós mesmos, sobre as coisas e sobre os outros.

Tudo aquilo que é diferente é também uma oportunidade que temos para nós redescobrir de uma forma diferente. A vida em constante metamorfose, evolui a partir da aceitação da singularidade de cada um e da vida em si, aceitando tudo o que de alguma forma me excede, sou desafiado a ser mais eu, a me exceder de mim mesmo. Dessa forma percebo, que já não sou somente eu que evoluo para mim, más que também são os outros evoluindo para nós. Tudo uma coisa só, dividida por tantas personalidades engarrafadas em mim e nos outros, tantas “nuances” e cores, que às vezes confundem e distraem a nossa mente com efemeridades, com aparências. Por esse confuso motivo, ligado ao outro em mim, prefiro simplesmente observar e infiltrar o sentido oculto da minha ligação com o todo, que está no outro, como uma parte de mim que desconheço.

 

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Palácio Barolo

Buenos Aires é uma bela cidade, que esconde alguns mistérios interessantes, sua arquitetura eclética, guarda surpresas de todos os tipos. Caminhar pela Av. de Maio e vislumbrar as construções do inicio do seculo XX é como ter um pedaço da Europa eternizado no pais sul americano. Entre os belos edifícios da Av. de maio, um deles, se destaca pela sua beleza é mistério eloquente. Tratasse do Edifício Barolo, uma representação viva da obra de Dante Alighieri: A divina comedia. Símbolos alquímicos, que retratam uma historia que ultrapassa os infernos até chegar a luz do verdadeiro amor, um amor platônico é alquímico que guia a Dante pelas passagens infernais até o paraíso da libertação.

Luiz Barolo era um comerciante italiano determinado em conservar as cinzas do poeta: Dante Alighieri, ele pretendia também, a partir do seu projeto único, considerado maior edifício de concreto armado de sul america na época, preservar a memória da arquitetura dos lugares em que viveu no velho continente. Apos as guerras que se iniciavam na Europa, pede para o arquiteto Mario Palanti, construir um edifício em homenagem ao poeta,  a intenção de Luiz Barolo, erá também, a de preservar diferentes estilos arquitetônicos europeus e inclusive indianos, criando uma construção eclética que reunisse na sua arquitetura, as memórias do tempo em que viveu na Europa e sua passagem pelo oriente. Sendo assim, decidiu construir um edifício baseado na “Divina comedia de Dante Alighieri”. O edifício Barolo como é conhecido, é um edifício de 22 andares e dois subsolos, possui mais de 100 metros da altura, na parte mais alta do edifício, existe um farol que pode ser visto desde o Uruguai, onde existe outro exemplar do mesmo edifício, que também possui um farol, e as luzes, de ambos os faróis, podem ser vistas de um pais para o outro, divididos apenas pelo Rio de la Plata. No seculo passado, esses faróis serviam para passar diversas mensagens entre Argentina e Uruguai .

A sua arquitetura misteriosa é cativante, nós abre percepções de todo tipo, incitando uma viagem para dentro, uma viagem aos infernos, purgatórios e paraísos existenciais, que vivem em nosso imaginário, e que cada um, os percebe de uma forma diferente. E que o poeta Dante Alighieri descreveu na sua obra de forma detalhada a partir da sua visão. Certo é, que obras com esse conteúdo, de pôr sim, despertam interesse, reflexões de toda índole. Um clássico da literatura universal, materializado pela arquitetura, pela busca do ser humano em adquirir respostas que façam sentido, dentro de um universo tão mais amplo do que nossas convicções. Uma obra repleta de imagens alquímicas, frases em latim, simbolismos misteriosos, que.

Sua mistura de neo-gótico, neorromântico, traz uma arquitetura eclética com um toque de impressionismo, principalmente pela sua cúpula inspirada no templo Rajarani Buhbanshesvar, Templo indiano do (seculo XVII), para representar o amor tântrico e alquímico de Dante e Beatriche. O arquiteto Palanti também era um estudioso da Divina comédia, e deixou suas referências bem claras na sua arquitetura de cunho sagrado.

A planta do edifício foi construída a partir da seção áurea e o número de ouro Pi (3,14). A divisão geral do palácio inspirado na Divina comédia, se da, a partir de três partes: inferno, purgatório e céu. Às nove abobadas de acesso, simbolizam os nove passos da iniciação e os nove círculos dantescos ou infernais, o farol representa os nove coros angelicais. Em cima do farol está alinhada pelo seu eixo principal a constelação da cruz do sul . O edifício possui 100 metros de altura asim como os 100 cantos da obra de Dante e tem 22 andares asim como as estrofes da Divina comédia. Dante não via o inferno como um fim teológico, mas como um ponto de partida nas etapas da iniciação para chegada ao paraíso.

Na França do seculo XI, aproximadamente, surgia um movimento conhecido como: o amor cortês, idílico e platônico, valorizado mais o ato de estar apaixonado que a sua a consumação. Para isto, o amante cortês buscava formas de amor que impedissem a consumação, e nisto o apaixonar-se por uma mulher casada seria o ideal, especialmente se tratando da mulher de seu amo ou cavaleiro do qual se era vassalo, e a cuja senhora devotava os mais nobres sentimentos secretamente servindo-a como ao seu senhor, vivendo assim no fio-da-navalha com seu secreto objeto de amor. Num certo sentido, o amor de Dante por Beatriche, mesmo que de forma diferente, retrata bem esse quadro. Em vida, ele se casou com Gemma Donati, no entanto, seu amor foi sempre de Beatriche, sua amada e musa inspiradora, que na realidade, chegou a falecer com 25 anos. Foi ela que Dante encontra no paraíso, é através dela que ele é guiado por esse estagio sutil.

A Fedele d’Amore era uma sociedade iniciática de poetas italianos, e Dante foi o mais proeminente entre eles. Para esses poetas, a imagem da amada revelou a Sophia Divina, ( Sophia na tradição gnóstica é uma figura feminina, análoga à alma humana e simultaneamente um dos aspectos femininos de Deus)  um ser que através da sua presença desperta estágios mais elevados de consciência. Para Dante, foi Beatriche que atuou como seu guia na passagem pelo purgatório e pelo nove círculos dantescos até a chegada sutil ao paraíso.

Dentro do edifício encontramos também muitas frases em latim, como, por exemplo, estas: ”Ars, hommo ádditus naturae” A arte é o ser humano agregado a natureza, ”Litteras occidit , spiritu vivificat” A letra mata, o espirito vivifica, ”Mallis tibi placere quom pópulo” Prefere agradar a ti mesmo, antes que ao povo”, Corpus ánimun tecit et detecit” O corpo as vezes oculta a alma, outras vezes a revela. Estas mensagens nos fazem pensar e refletir nos movimentos da alma, e demostram o sentido espiritual em que o edifício foi construído determinando asim seu carácter e sua função, que em partes se encontra explicita, em partes encontrasse como um mistério a desvendar, representado pelo caminhante que adentra num espaço amplamente onírico, que sem dúvida nos incita a pensar sobre o inferno da idade media que as pessoas tanto temiam e muitos ainda temem. No entanto, essa passagem para Dante era vista como um percurso de conhecimento, que permite preparar almas para o entendimento de algo mais puro, pela passagem por lugares obscuros e amedrontadores até a subida para o paraíso, onde se encontra o amor representado por Beatriche, e a luz da verdade que será alcançada por aqueles que a buscam de coração.

O palácio Barolo que fica na Av. de Maio, no bairro Monserrat em Buenos aires, está aberto para visitação pública. A noite também existem visitações guiadas que levam até topo do farol, onde junto com o guia, o farol e acesso propondo uma bela vista da cidade de Buenos aires. Um passeio pelos mundos internos, exposto pela arquitetura sagrada.

O site do Barolo, para quem tem interesse de conhecer é:

https://palaciobarolo.com.ar/